3 de fev. de 2009

"Causo" do livro "O porco filósofo"

O livro “O porco filósofo” traz cem experiências de pensamentos ou dilemas éticos proposto por Julian Baggini. E o “caso” número oito da obra ilustra bem o que eu vinha pensando sobre a inutilidade de se debruçar tanto sobre o estudo de Deus, sobre o que vem depois da morte, (sobre coisas bem pouco úteis, mas tão típicas das religiões ocidentais) enquanto ainda estamos vivos:
" BOM DEUS
E o Senhor disse para o filósofo:
- Eu sou o Senhor teu Deus e sou a fonte de todo o bem. Por que a filosofia moral me ignora?
E o filósofo disse para o Senhor:
- Para responder preciso, primeiro, Lhe fazer algumas perguntas. O Senhor nos manda fazer o que é bom. Mas é bom porque o Senhor ordena, ou o Senhor ordena o que é bom?
- Er... – disse o Senhor. É bom porque eu ordeno.
- Resposta errada, sem dúvida, ó Todo-Poderoso. Se o bem é bem apenas porque o Senhor diz que é, então o Senhor poderia, se desejasse, fazer com que torturar crianças fosse bom. Mas isso seria absurdo, não seria?
- Claro! – respondeu o Senhor. – Eu o testei e você me agradou. Qual era mesmo a outra opção?
- O Senhor escolheu o que é bom porque é bom. Mas isso mostra com bastante clareza que a bondade não depende do Senhor em nada. Então não precisamos estudar o Deus para estudar o bem.
- Mesmo assim – disse o Senhor -, você tem de admitir que escrevi alguns bons livros sobre o assunto... "
Nos comentários que seguem o caso o autor explica que Deus é identificado ao bem, assim como ao amor e à beleza. Porém, a impossibilidade de dissociar o bem de Deus (já que ambos são a mesma coisa e formam uma unidade) não leva de forma alguma à impossibilidade de uma moral sem Deus: sabemos o que é bom e é isso que nos torna capaz de dizer com segurança que Deus é bom. Se Deus defendesse a tortura sem sentido (ou se ele persistisse como o Deus vingativo e sanguinolento do Velho Testamento), saberíamos que ele não é bom; que ele não corresponde ao bem. Isso mostra que somos capazes de entender a natureza do bem independentemente de Deus. Portanto, uma moralidade sem Deus é possível. E até desejável: a despeito de muitas pessoas associarem Deus ao bem, quase ninguém chega ao consenso do que seria Deus ao está, ao menos, aberto a discuti-lo, à proporção em que discutir e acordar em torno do conceito de bem e dos comportamentos que se enquadram nesse conceito é tarefa mais simples.

Nenhum comentário: